Lagos e o barlavento algarvio são ricos em arqueologia — de menires neolíticos e villas romanas a uma das mais importantes descobertas do tráfico de escravos na Europa. Aqui ficam dez sítios que percorrem milhares de anos de história.
Lagos e o barlavento algarvio guardam no solo milhares de anos de história humana. A curta distância pode estar diante de menires neolíticos erguidos há cinco mil anos, seguir os muros de uma villa romana de salga de peixe, ou confrontar uma das mais importantes — e comoventes — descobertas do tráfico transatlântico de escravos. Aqui ficam dez sítios arqueológicos que vale a pena procurar, e o que cada um revela.
1. Monte Molião
Numa colina sobre o estuário da Ribeira de Bensafrim, mesmo à saída do centro histórico, o Monte Molião é um dos sítios arqueológicos mais importantes de Lagos. Habitado desde a Idade do Ferro até à época romana, fez parte da antiga Lacobriga, e as escavações revelaram casas, muros, termas e uma riqueza de achados. O sítio está vedado e não tem visita formal, mas vê-se os vestígios a partir do perímetro — e só a vista explica por que ali se fixaram populações.
2. Cemitério de Escravos do Vale da Gafaria
Em 2009, obras junto ao exterior da muralha quinhentista revelaram um dos achados arqueológicos mais comoventes da Europa: uma lixeira onde os corpos de cerca de 155 africanos escravizados — homens, mulheres e crianças — tinham sido lançados, entre os séculos XV e XVII, fora de todos os costumes funerários. É o mais antigo local de sepultamento de africanos escravizados conhecido no mundo. O local em si foi construído por cima, mas a sua história e as ossadas são apresentadas com cuidado no Núcleo da Rota da Escravatura, ali perto (ver a seguir).
3. Núcleo da Rota da Escravatura (Mercado de Escravos)
Instalado no antigo edifício do mercado, na praça principal — tido como o local do primeiro mercado de escravos da Europa —, este pequeno mas poderoso museu conta a história de Lagos e do tráfico transatlântico de escravos, e expõe os achados do cemitério do Vale da Gafaria. É uma visita sóbria e essencial, e a forma mais direta de compreender este capítulo da história da cidade. A entrada é módica, cerca de 3 euros.
4. Museu de Lagos (Dr. José Formosinho)
O museu municipal de Lagos é o sítio para ver a arqueologia da região reunida sob o mesmo teto. A sua coleção eclética vai de artefactos pré-históricos e romanos à história local, à cerâmica e a um famoso "gabinete de curiosidades", com achados de sítios de toda a zona. É um ótimo complemento à visita aos próprios sítios, dando contexto aos vestígios dispersos. A deslumbrante igreja dourada de Santo António faz parte da mesma visita.
5. Menir de Odiáxere
Na vila de Odiáxere, no jardim da Quinta Menir, ergue-se um menir neolítico com vários milhares de anos. De forma cilíndrica e topo partido, está decorado com linhas onduladas talhadas em relevo — e as peças em sílex e a cerâmica encontradas nas imediações sugerem que ali existiu um povoado pré-histórico. Um monumento tranquilo e de fácil acesso, e um elo concreto com os primeiros habitantes da região.
6. Menir da Cabeça do Rochedo
Junto a Bensafrim, uma curta caminhada a partir da estrada leva a este notável menir neolítico, distinguido por um motivo em espiral gravado na sua superfície há milhares de anos. Solitário em pleno campo, é um vislumbre extraordinariamente acessível da pré-história profunda — e o tipo de monumento que recompensa quem o procura. Leve calçado resistente para a pequena subida.
7. Menires do Padrão
Rumo a Vila do Bispo fica uma das mais ricas concentrações de menires do Algarve. O núcleo do Padrão inclui cerca de uma dúzia de menires, alguns escavados por arqueólogos, datados do Neolítico final e do Calcolítico inicial — há cerca de 5000 anos. Espalhados pela paisagem aberta junto à costa sudoeste selvagem, fazem parte de uma notável paisagem ritual pré-histórica.
8. Cromeleque dos Amantes
Ainda mais raro do que um menir isolado é um cromeleque — um recinto de menires — e perto de Vila do Bispo existe um. O Cromeleque dos Amantes é formado por menires de calcário branco dispostos numa elipse, em pleno campo a curta distância da vila. Estes recintos megalíticos tinham um profundo significado ritual para as comunidades que os ergueram, e estar entre as pedras é genuinamente marcante.
9. Ruínas Romanas da Boca do Rio
Na praia da Boca do Rio, a oeste de Lagos, os vestígios de uma villa romana e de um complexo de salga de peixe assentam mesmo à beira da água — parte a desfazer-se lentamente no mar. Foi outrora um próspero local de produção, a salgar peixe e a fazer o cobiçado garum, o molho comercializado por todo o império. Não há painéis informativos, e os arqueólogos ainda ali trabalham, mas os muros e tanques visíveis fazem uma paragem evocativa e fora dos roteiros.
10. Villa Romana da Abicada
Junto a Mexilhoeira Grande, a leste de Lagos, a Villa Romana da Abicada são os vestígios de uma grande residência romana organizada em torno de um pátio com peristilo, outrora decorada com mosaicos. Data dos primeiros séculos d.C. e situa-se num cenário rural tranquilo, perto do estuário do Alvor. Não tem visita formal e não está sinalizada, por isso é para os mais dedicados — mas completa o retrato da vida romana nesta costa.
Visitar os sítios
A maioria destes sítios é ao ar livre e gratuita, e os dois museus da cidade são baratos. Vários dos monumentos pré-históricos não estão sinalizados e alcançam-se a pé, por isso leve bom calçado e pise com cuidado — são lugares frágeis, com milhares de anos. Por favor, não suba nem toque nas pedras; resistiram a milénios, e merecem resistir a muitos mais.